22 de setembro de 2012

Conhecendo e evitando o ataque de Abelhas


Um ataque de abelhas é algo onde um escalador deve saber como se comportar, pois o desconhecimento e o desespero podem lhe custar a vida.
"Esconder no bambuzal, proteger o pescoço e a cabeça, se jogar no rio mais próximo... Quais são os procedimento corretos para uma situação como esta?"
Como Bombeiro Militar por profissão e escalador por estilo de vida, quero nesta matéria listar algumas dicas, recomendações e instruções que recebidas no curso de apicultores e nas experiências do dia a dia de trabalho.
Além da dor, o principal sintoma que pode surgir imediatamente após uma ou algumas picadas de abelha, é o estreitamento da glote em função do choque, como tratamento imediato para esta situação seria a administração de Fenergan direto na veia, se não houver um profissional capacitado, o ideal é procurar o posto de saúde ou hospital mais próximo. O ideal também é sempre levar um antialergico em sua mochila. 
COMO O VENENO SE MANIFESTA
Forte dor, nos primeiros 2 a 3 minutos, proporcional ao número de picadas e conforme o local do corpo
Inchação mais ou menos acentuada, de acordo com o local do corpo atingido
Vermelhidão no local da ferroada
Coceira local ou generalizada (nas pessoas alérgicas)
Aumento da temperatura corporal, principalmente no local da picada
Falta de ar (dificuldade de respirar)
Os lábios adquirem cor azulada (em casos de alergia)

Segue alguma outras recomendações importantes:


-A primeira recomendação é correr para longe, se possível. Se afastar rapidamente do epicentro do acontecimento. Por mais simples que parece essa ainda continua sendo a maneira mais simples e eficiente de minimizar um ataque de abelhas.
-Caso não haja possibilidade de fuga, procure rapidamente algum arbusto ou vegetação fechada, e entre o mais que puder debaixo da folhagem, ficando imóvel e em silêncio. Outra possibilidade, esta para locais de vegetação rasteira, é permanecer deitado e de bruços (barriga para baixo). No capinzal, deite e se enfie o mais que puder, cobrindo-se puxando-o pra cima de sí. Cubra a cabeça com os braços e tente não deixar muitas aberturas na sua roupa. Se tiver um casaco, anorak, mochila, sleep, lona plástica ou qualquer objeto que possa ajudar a cobrí-lo, use-o e tente ficar o mais imóvel possível, com o rosto protegido pelo casaco/camiseta/mochila etc.
-Parece obvio, mas não gritar é mais um bizu, elas são atraídas por ruídos, principalmente os agudos. Meninas...
-Quanto mais escura a sua roupa, tanto mais elas podem atacar. Cores escuras alvoroçam as abelhas, que só enxergam direito as cores mais escuras. É por esse motivo que a maioria dos macacões de apicultor são brancos ou claros, porque essas cores as acalmam.
-Uma dica das mais importântes, não mate as abelhas que pousa em você. Se você estiver com várias abelhas grudadas em você, entre na vegetação em silêncio e tente retira-las da forma menos "destrutiva" possível. Cuidado também com aquelas penduradas pelo ferrão, retire com cuidado, peça ajuda a um amigo se possível. Esse procedimento evita que o cheiro do hormônio das abelhas fique no seu corpo.  Usa folhas e arbustos també ajudam a camuflar este cheiro. 
-Esse hormônio é realmente um prodígio da natureza, um sistema de comunicação eficientíssimo entre as abelhas de uma mesma comunidade, pois sabe-se até hoje que existem 3 ou 4 tipos diferentes de hormônios, cada um transmitindo uma orientação distinta. Quanto mais você exala esse feronômio, mais abelhas você vai atrair pra você.
Existem 2 tipos ligados a ataques. Ele são volatilizados no ar em menos de dois segundos após a picada, e permanecem durante uns 20 segundos sendo exalados, atraindo rapidamente outras abelhas, já com a ordem irrevogável de que devem atacar. Esse é o motivo pelo qual na maioria dos casos de ataques ocorrem grandes "concentrações" de picadas em pequenas regiões do corpo, também chamados de "empeloteamento de abelhas", e outras área do corpo com poucas ou nenhuma.
Ao contrário dos marimbondos que podem picar "indefinidamente", as abelhas quando picam morrem, pois seu aparelho excretor e reprodutor sai, arrancado pelas ligações que tem com o ferrão e bolsa de veneno. As vezes, sobrevivem mais de um dia. Portanto, abelhas que estão penduradas após terem picado não picarão novamente, mas devem ser removidas por causa do cheiro.
-Extintores de incêndio, sejam qual for, nunca estão disponíveis em casos de ataques, e seu raio de ação é restrito, por razões óbvias.
-Procure manter a calma, como em todas as situações de acidente. Parece bobo recomendar isso, mas há relatos de pessoas que mantiveram a calma e tomaram um número significativamente menor de picadas do que outras mais deseperadas e que estavam bem ao lado.
Abelhas são seres muito sensitivos e refinados. Alguma coisa em nosso nervosismo as alvoroça. Você ja viu aqueles doidos com enormes "barbas" de abelhas? Tudo isso é controle psicológico.
-Proteja sobretudo os olhos. Uma picada certeira, dada diretamente na superfície do olho tem quase 90% de chances de ocasionar a perda total da visão. Há casos relatados. Na pior das hipóteses, se o ataque for muito forte e você não conseguir abandonar o lugar, pense direto nos olhos, e não os abra. Fique de bruços no chão e cubra a cabeça o mais que puder, de olhos apertados.
-A magnitude do ataque é diretamente proporcional ao tamanho do enxame. Quanto mais numeroso, mais instável é o clima "político" nele, mais encorajado fica. Enxames populosos "clamam" por uma nova rainha, pra poder se dividir e migrar, no seu ciclo normal. Esse é um momento ruim pra cruzar um enxame desses. Por outro lado, uma vez dividido, se está ainda enxameando, ou seja, procurando por uma casa, ou acabado de chegar a um lugar que considerou adequado, passam a ser muito mais mansos.
-Por fim, a triste verdade, que já foi reportada como lenda: cada pessoa possui uma reação distinta à picadas, e isso varia demais. Há casos de mortos com 3 picadas (sim, três) e casos de sobreviventes com mais de 250. Cientificamente, se diz que um ser humano pouquíssimo alérgico suporta no máximo 400 picadas. (Acompanhe texto ao final destas recomendações, para saber mais sobre aspectos clínicos das picadas e tratamento adequado)

·Nestas situações, naturalmente não é possível seguir uma "cartilha" de passos pra se livrar do ataque, muitas vezes porque algumas circunstâncias impedem, por exemplo, pra quem estava encordado e na parede, ficar de bruços ou se esfregar na vegetação. As circunstâncias são muito importantes no desfecho dos ataques, e em geral só conseguimos nos lembrar e fazer uma coisa ou outra, nunca tudo, senão todo mundo se safaria bonitinho, coisa que infelizmente raramente acontece.
Tudo acontece sempre muito rápido, por isso mesmo é importante tomar uma atitude logo que a coisa inicia, pois logo depois instaura-se o caos e o desespero, impedindo-nos de pensar em uma atitude a tomar. Esse pânico representa perigo; podemos, em nosso desespero, cair de um desnível perigoso. Mas se estivessem sofrendo um ataque maciço, poderiam se desesperar e sofrer uma queda, até isso é possível de acontecer, tropeçar, escorregar, ou mesmo se demorar a fazer algo e levar um número fatal de picadas.
-Em todo o caso, se não existe um passo a passo, um BIZU chave, pelo menos é bom memorizar algumas coisas, e tentar se lembrar de algumas delas se um dia você precisar. Espero que nunca precisem, pois é um momento muito ruim. Já tive a ruim experiencia de atender ao um senhor na cidade de Queimadas-PB, que levou centenas de picadas e não resistiu aos ferimentos. O retiramos com vida, porém ele não resistui aos ferimentos, e as consequencias das picadas. Retira-lo do local não foi tarefa fácil, poruque ao seu redor ainda existia centenas, o resgate valeu algumas picadas pra mim e para a guarnição que eu estava. Espero que estas informações possam ajudar, caso necessário. Abaixo, segue um trabalho detalhado a respeito de providências médicas a serem tomadas em casos como este.
Abelhas e Vespas
Os acidentes por picadas de abelhas e vespas apresentam manifestações clínicas distintas, dependendo da sensibilidade do indivíduo ao veneno e do número de picadas. O acidente mais freqüente é aquele no qual um indivíduo não-sensibilizado ao veneno é acometido por poucas picadas. Nestes casos, o quadro clínico limita-se à reação inflamatória local, com pápulas eritematosas, dor e calor. Na maioria das vezes esta situação é resolvida sem a participação médica.
Outra forma de apresentação clínica é aquela na qual o indivíduo previamente sensibilizado a um ou mais componentes do veneno manifesta reação de hipersensibilidade imediata. É ocorrência grave, podendo ser desencadeada por apenas uma picada e exige a intervenção imediata do médico. O quadro clínico em geral manifesta-se por edema de glote e broncospasmo acompanhado de choque anafilático.
A terceira forma de apresentação deste tipo de acidente é a de múltiplas picadas. Geralmente o acidente ocorre com as abelhas do gênero Apis, quando o doente é atacado por um enxame - em geral no campo. Nesse caso ocorre inoculação de grande quantidade de veneno, devido às múltiplas picadas, em geral centenas ou milhares. Em decorrência, manifestam-se vários sinais e sintomas, devido à ação das diversas frações do veneno. Este tipo de acidente é raro.
O quadro clínico decorre da ação das diferentes frações do veneno. Entre elas podemos citar: apamina, fosfolipases A e B, peptídeos da família melitina, peptídeos degranuladores de mastócitos (MCD), além de histamina, bradicinina e substâncias de reação lenta.
Ao darem entrada no hospital os doentes em geral apresentam dor generalizada, prurido intenso e agitação, podendo posteriormente evoluir para estado torporoso.
A utilização combinada de anti-histamínicos, corticosteróides e meperidina contribui para controlar a dor, o prurido e a agitação. A insuficiência respiratória pode se instalar precocemente, sendo em geral acompanhada de edema de glote, broncospasmo e edema generalizado das vias aéreas.
Estas alterações são causadas pela histamina liberada em decorrência da ação de frações do veneno, entre elas os peptídios da família melitina, a fosfolipase A e principalmente os peptídios degranuladores de mastócitos. A utilização de anti-histamínicos, corticosteróides e adrenalina, assim como a traqueostomia e/ou a intubação endotraqueal, seguida de ventilação artificial, contribui sobremaneira para controlar a insuficiência respiratória.
Hemólise intensa é freqüente, acompanhada de insuficiência renal.
É causada pela ação da apamina, pelos peptídios da família melitina e pela fosfolipase A sobre a membrana eritrocitária. Os doentes podem evoluir também com hipertensão arterial, decorrente possivelmente da hiperatividade simpática.
O tratamento de poucas picadas de abelhas ou vespas em indivíduo não-sensibilizado deve ser à base de anti-histamínicos sistêmicos e corticosteróides tópicos. Temos dado preferência à dextroclorofeniramina (Polaramine ® ), na dose de 2 a 6 mg pela via oral, a cada seis ou oito horas. Este tratamento deve ser mantido por três a cinco dias de acordo com a evolução clínica. Além disso, devemos adicionar corticóides tópicos isoladamente ou associados ao mentol a 0,5%.
O tratamento do indivíduo sensibilizado que evolui com broncospasmo, edema de glote e choque anafilático é o mesmo referido para as reações anafiláticas e anafilactóides, citado anteriormente neste capítulo.
O tratamento do acidente por múltiplas picadas de abelha ou vespas é sempre uma emergência médica. Infelizmente ainda não se dispõe de um soro específico contra estes venenos, embora já existam pesquisas em desenvolvimento. Devem ser tomadas as seguintes providências imediatamente após o doente chegar ao hospital:
·  · injetar, via intramuscular, uma ampola de prometazina (Fenergan ®); em crianças utilizar 0,1 a 0,5 mg/kg de peso corporal.
· · injetar, via intramuscular, uma ampola de hipnoanalgésico do tipo meperidina (Dolantina ®); em crianças aplicar 1,5 mg/kg de peso/dia.
· · se estiver em estado de choque injetar, via subcutânea, 0,5 a uma ampola de adrenalina aquosa 1:1.000. Em crianças utilizar 0,01 mg/kg de peso corporal.
· · se houver broncospasmo com presença de sibilos, injetar, via intramuscular, uma ampola de aminofilina. Em crianças utilizar 7 mg/kg de peso o que corresponde a 0,3 ml/kg de peso, seguidos da instalação de cateter de oxigênio. Manter o esquema até o desaparecimento do broncospasmo.
·  · cateterizar uma veia central, com posterior instalação de pressão venosa central.
·  · administrar, via endovenosa, 1 g de hidrocortisona (Solucortef ®). Em crianças utilizar 7 mg/kg de peso corporal. Este esquema deve ser mantido por pelo menos três a cinco dias, de acordo com a evolução clínica.
·  · hidratar bem o doente com colóides e cristalóides, induzindo a seguir a diurese osmótica com manitol a 20%, na dose de 100 ml, via endovenosa, a cada seis horas para adultos, e 10 a 12,5 ml/Kg de peso corporal para crianças. O manitol deverá ser mantido por pelo menos cinco dias. Deve-se tomar cuidado com uma possível desidratação iatrogênica. Quando o doente apresentar anúria o manitol está contra-indicado.
· · alcalinizar a urina com solução de bicarbonato de sódio na dose de 1 a 2 mEq/kg de peso/dose a cada seis horas, para prevenir as lesões renais causadas pela hemoglobinúria. O pH ácido da urina favorece as lesões renais.
· · retirar os ferrões um por um, com o cuidado de evitar a inoculação do veneno neles contido. Deve ser salientado que durante a picada apenas um terço do veneno contido no ferrão é inoculado na vítima. O restante fica no aparelho inoculador, situado na extremidade proximal do ferrão. A retirada incorreta dos ferrões pode ser acompanhada de compressão deste aparelho. Como conseqüencia haverá inoculação de grande quantidade de veneno. Para retirá-los, utilizar uma gilete ou um pinça de Halsted aplicada rente à pele.
·  · sondagem vesical e nasogástrica.
·  · aplicação de permanganato de potássio na diluição de 1:40.000, para anti-sepsia das áreas picadas.
·  · alimentação enteral com cerca de 2.000 calorias por dia.
·  · manutenção dos equilíbrios hidreletrolítico e acidobásico.
·  · traqueostomia e/ou intubação orotraqueal, com instalação de respiração assistida, quando indicada.
·  · diálise peritonial e/ou hemodiálise, quando houver insuficiência renal aguda.
·   · prevenir a formação de escaras de decúbito; evitar infecções respiratórias secundárias.



Nesta fotos estão Luciano, Cauí e Maurício com roupas de apicultor na operação de remoção das abelhas que estão ainda alojadas na via Revolução dos Bichos, na Pedra da Bicuda-PE.


Um Bizu final, em casos de ataca lige 193 e/ou 192 e/ou dirija-se rapidamente para o hospital mais próximo.





Fontes Utilizadas:

Adaptado do texto de João Paulo Mazili Costa

MARSKI FILHO, DAVI AUGUSTO

PHTLS

Imagens - escaladape.blogspot.com.br e do Google.